De dentro do onibus vejo
o bafo dos vidros e o estalo dos pingos
que anunciam a chegada
do inverno irreal
De dentro do ônibus sinto-me
protegida do vento que faz
com que as gotas simulem uma corrida
aos céus através do imenso pára-brisas
(tudo isto embalado pelo arquivo
compactado em mega-bytes e acordes
transmitios ao meu pensamento via
canal auditivo)
De dentro do ônibus levo
o meu pensamento para fora,
em um molhar-se com a água que escorre das nuvens
e que faz com que eu me confunda com ela.
terça-feira, 22 de abril de 2008
sábado, 19 de abril de 2008

diante de uma mulher
nunca se sabe o olhar,
o jeito como se moverão
os lábios, as mãos
ou qual carinho
ou intenção
poderão vir a
seguir.
os cabelos despedem-se
de mim mesmo após todo
o rito.
sinto-me vil
ao perceber as intenções
que tive, imperceptíveis
(ou só um jogo?)
a seus olhos, ouvidos e
boca.
os cabelos ficam na
imaginação de quem sabe
brincar com o tempo e
com o instante. a intenção,
toda ela vai. vai-se embora.
vai-se embora. com todo o
corpo que diz adeus
ao meu.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
amor, s.f.
Eu viro as folhas
daquele dicionário
velho e encardido
pelos dias e anos
através dos quais
vem existindo
As palavras negras
passam rapidamente
- como insetos adormecidos
fincados nas páginas -
pelos meus olhos vívidos e
ansiosos pela resposta
(mas eu não a encontro)
Uma perturbação mental e
um desespero intenso
me faz corrê-las
pacientemente,
buscando os vocábulos
sinonímios a esta imagem
específica:
Fracasso.
Não há,
ela se encerra em si -
esta palavra-mistério
que todos nós
compreendemos
mas não dizemos
de outra forma,
a não ser esta:
gasta, poída e,
ainda assim,
preciosa.
Eu viro as folhas
daquele dicionário
velho e encardido
pelos dias e anos
através dos quais
vem existindo
As palavras negras
passam rapidamente
- como insetos adormecidos
fincados nas páginas -
pelos meus olhos vívidos e
ansiosos pela resposta
(mas eu não a encontro)
Uma perturbação mental e
um desespero intenso
me faz corrê-las
pacientemente,
buscando os vocábulos
sinonímios a esta imagem
específica:
Fracasso.
Não há,
ela se encerra em si -
esta palavra-mistério
que todos nós
compreendemos
mas não dizemos
de outra forma,
a não ser esta:
gasta, poída e,
ainda assim,
preciosa.
la niña
A chuva caía
e o vento forte
fazia ondas no ar
- revelando-se
através dos pingos
gelados e descontrolados:
era o inverno
brigando com o verão
que não quer mais
se despedir
e o vento forte
fazia ondas no ar
- revelando-se
através dos pingos
gelados e descontrolados:
era o inverno
brigando com o verão
que não quer mais
se despedir
retornável
Eu te envio mil eu-te-amos
digitalizados pelo aparelho
de comunicar portátil.
E então as palavrinhas
se propagam pelo ar
fazendo as pessoas as
observarem como se fossem
mil borboletas multicoloridas
que se acasalam no céu azul.
"Mas é amor", eu penso.
E as borboletinhas vão voando,
voando...
E encontram você,
pousam na sua mão delicada
e fazem sair uma lágrima
- solitária -
que evapora
e cai em mim
com a chuva de verão.
digitalizados pelo aparelho
de comunicar portátil.
E então as palavrinhas
se propagam pelo ar
fazendo as pessoas as
observarem como se fossem
mil borboletas multicoloridas
que se acasalam no céu azul.
"Mas é amor", eu penso.
E as borboletinhas vão voando,
voando...
E encontram você,
pousam na sua mão delicada
e fazem sair uma lágrima
- solitária -
que evapora
e cai em mim
com a chuva de verão.
À la carioca
Je te vois
na padaria
da esquina
tomando pingado
e ouvindo jazz
no ême-pê-
três
enquanto
te comparo
com qualquer coisa
melhor que um
burguês
na padaria
da esquina
tomando pingado
e ouvindo jazz
no ême-pê-
três
enquanto
te comparo
com qualquer coisa
melhor que um
burguês
1 min.
O suor está na minhas mãos
assim como o sereno sobre os carros
em uma manhã de inverno
após uma noite fria e úmida.
Calafrios, confusões mentais
os olhos percorrendo o ambiente
de forma a não entender nada.
Somente imagens, cores.
Os significados somem,
esvai-se a essência.
Há um desespero,
um medo do não-sentir.
E eu não sinto,
por um momento infindo.
assim como o sereno sobre os carros
em uma manhã de inverno
após uma noite fria e úmida.
Calafrios, confusões mentais
os olhos percorrendo o ambiente
de forma a não entender nada.
Somente imagens, cores.
Os significados somem,
esvai-se a essência.
Há um desespero,
um medo do não-sentir.
E eu não sinto,
por um momento infindo.
Sushi Bandeira
O casal de
japoneses idosos
lê o
cardápio do
restaurante
com graça d'um
míope
sem óculos
enquanto
lê
os
poemas
de
Manuel
Bandeira.
japoneses idosos
lê o
cardápio do
restaurante
com graça d'um
míope
sem óculos
enquanto
lê
os
poemas
de
Manuel
Bandeira.
cogumelo atômico
terça-feira, 15 de abril de 2008
segunda-feira, 7 de abril de 2008
da função da arte
Existe um toque especial que faz com que todo o dia seja preenchido por uma sensação agradável de bem-estar e necessidade de amar a tudo e a todos. Existe uma maneira de amar a todos que contagia quem tem a pré-disposição de amar a tudo e a todos.
Ser sensível é basicamente ser apaixonado, ter esta pré-disposição aflorada. Não digo a paixão dos amantes, pois esta é uma paixão à parte. Mas a paixão de saber sorrir ao sorriso, de saber apreciar as palavras alheias, a chuva que te pega desprevenido no caminho do trabalho, o palhaço vendedor de balas que entra no ônibus acordando o cochilo da volta pra casa.
E acredito eu, que quem diz que a arte não tem função, cometeu um equívoco. A arte, a literatura sobretudo, serve para humanizar. Acima de qualquer coisa humanizar. E fazer isto é fazer com que o outro se sensibilize com o mundo, estranhe ele num sentido de des-vulgarizá-lo, como a Clarice Lispector ao descrever o cego mascando chiclete.
Ser sensível é basicamente ser apaixonado, ter esta pré-disposição aflorada. Não digo a paixão dos amantes, pois esta é uma paixão à parte. Mas a paixão de saber sorrir ao sorriso, de saber apreciar as palavras alheias, a chuva que te pega desprevenido no caminho do trabalho, o palhaço vendedor de balas que entra no ônibus acordando o cochilo da volta pra casa.
E acredito eu, que quem diz que a arte não tem função, cometeu um equívoco. A arte, a literatura sobretudo, serve para humanizar. Acima de qualquer coisa humanizar. E fazer isto é fazer com que o outro se sensibilize com o mundo, estranhe ele num sentido de des-vulgarizá-lo, como a Clarice Lispector ao descrever o cego mascando chiclete.
domingo, 6 de abril de 2008
Fragmento 1
A louça estava suja na pia e o suor corria pela minha testa. Enquanto pensava em quantos copos ainda viriam pela frente, quantos copos eu teria que ensaboar, ouvia o choro da criança no quarto. O choro. E ele ia se distanciando em uma velocidade ínfima - O choro, onde está o choro?
A porta se abriu, o barulho do chaveiro do João batendo na porta. Acho que acordei naquele momento. O vento balançou a cortina da sala, deixando entrar uma folha que voou até mim. João beijou meu rosto segurando a minha cintura – Estou suada, João... Estou suada!... Mas ele pareceu não se importar. Entrelaçou-se em mim e limpou meu suor, tirando o avental que protegia a roupa nova que esqueci de tirar antes de começar os afazeres. João não percebeu e disse que eu estava linda suada, que o suor me fazia brilhar. E eu fechei os olhos, sentindo as mãos dele percorrendo o meu rosto, enquanto ouvia o vento balançando as folhas das árvores na rua.
A porta se abriu, o barulho do chaveiro do João batendo na porta. Acho que acordei naquele momento. O vento balançou a cortina da sala, deixando entrar uma folha que voou até mim. João beijou meu rosto segurando a minha cintura – Estou suada, João... Estou suada!... Mas ele pareceu não se importar. Entrelaçou-se em mim e limpou meu suor, tirando o avental que protegia a roupa nova que esqueci de tirar antes de começar os afazeres. João não percebeu e disse que eu estava linda suada, que o suor me fazia brilhar. E eu fechei os olhos, sentindo as mãos dele percorrendo o meu rosto, enquanto ouvia o vento balançando as folhas das árvores na rua.
fragmento
Me dá um cigarro. Me dá um cigarro. Não consigo relaxar mais. A vida me sugou pela metade e me sinto sozinho, mesmo estando ao seu lado. Portanto, me dá logo um cigarro. Quero matar-me aos poucos, com a piedade dos homens de bem do governo. Quero poder pagar por todos os pensamentos estúpidos que tenho. Por tudo de estúpido que sinto diante do mundo. Eu tenho um isqueiro, posso acendê-lo. Não, não ligo que seja light. É melhor, é uma morte mais lenta, menos instantânea, menos solidária.
O sol lá fora esquenta a casa e eu preferiria estar sentindo frio. Preferiria uma chuva que não cessa - por uma semana. E ficaria cá dentro, lembrando do rosto que me causa essa aflição indigestiva e vergonhosa. Meu estômago nunca produziu uma quantidade tão intensa de ácido. Sofrer corrói a gente literalmente por dentro.
O sol lá fora esquenta a casa e eu preferiria estar sentindo frio. Preferiria uma chuva que não cessa - por uma semana. E ficaria cá dentro, lembrando do rosto que me causa essa aflição indigestiva e vergonhosa. Meu estômago nunca produziu uma quantidade tão intensa de ácido. Sofrer corrói a gente literalmente por dentro.
Lamentação no.1
Olhei o mar
cinza, prata, preto;
um fedor do cão.
Ou melhor,
um fedor de gente.
Clorueto de escremento,
sabão em pó pulverizado
de xícaras e xícaras
de café com adoçante.
Os peixes morrem de que?
De câncer?
Moro a duzentos e oitenta
e cinco metros - uma medida
inventada -
da Baía de Guanabara. A Baía
do Rio de Janeiro em 1500 e
1808.
Os peixes naquela época
ainda sabiam o que era
o sol.
cinza, prata, preto;
um fedor do cão.
Ou melhor,
um fedor de gente.
Clorueto de escremento,
sabão em pó pulverizado
de xícaras e xícaras
de café com adoçante.
Os peixes morrem de que?
De câncer?
Moro a duzentos e oitenta
e cinco metros - uma medida
inventada -
da Baía de Guanabara. A Baía
do Rio de Janeiro em 1500 e
1808.
Os peixes naquela época
ainda sabiam o que era
o sol.
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