segunda-feira, 8 de setembro de 2008

vou de ônibus


Engraçado como me recordo das noites mais agoniantes com algo tão simples como não conseguir achar o apoio-de-pé do ônibus ao voltar pra casa. Sento no banco e cadê o maldito ferrinho? E a sensação de estar desprotegida vai aumentando a cada levantada de perna e a cada busca em vão com o pé esticado, passeando pelo ar debaixo do banco da frente.

Tem uma hora que desisto. Cruzo os braços em cima da mochila com um semblante infantil de mal-humor. E tento distrair-me com algo olhando pela janela. Aquelas pessoas, todas elas, dentro e fora do ônibus me enojam. Não sei se pelo balançar do ônibus no asfalto irregular - tum tum tum - ou se pelos rostos; todos cínicos, vazios e sem vida. Só sei que dá uma vontade danada de vomitar, e eu não sei como faria se eu realmente o tivesse de fazer.

Tento aliviar o enjôo deixando a janela bem aberta e sentindo aquele vento úmido e gelado do inverno bater na minha face com força, jogando o meu cabelo pra trás como se eu fosse um daqueles bonequinhos pelados e engraçados com o cabelo colorido no formato de uma grande gota na horizontal. Não sei se os farei lembrar assim.

Mas é uma merda. Enjoar no ônibus é sinal que não poderei ler uma linha do livro que carrego na mochila durante essa viagem estúpida, junto com essas pessoas que só sabem ouvir música no MP4 comprado no camelô. Às vezes fico brincando de adivinhar o que ouvem. Geralmente minhas adivinhações são carregadas de um imenso preconceito cultural do qual não me envergonho. Outras vezes nem preciso adivinhar, o som do meu vizinho de banco é tão alto que vejo lá na frente, o primeiro passageiro sacudindo a cabeça no ritmo do conteúdo do player dele.

Uma vez dessas assim, estava a meu lado uma menina de tailleur preto com um Ipod no último volume, enquando eu voltava do trabalho pela orla de Copacabana. Lá fora aquele cenário decadente de prostitutas, turistas sexuais e outros tipos de turistas que não entendo o que vêm fazer aqui com sua família. Não vejo tanto valor assim no Corcovado ou no Pão-de-Açúcar pagando o preço de flanar por entre o declínio dessa cidade partida.

Enfim, mas voltando ao assunto do Ipod: tocava em um volume imensurável um tum tzi tum tzi frenético. E o semblante da ouvinte era incrivelmente sereno. Um paradoxo lindo. Como ela conseguia? Será que era dela mesmo aquele barulho todo ou do meu vizinho de trás?

Arranjei um jeito de descobrir, já que ela estava do lado da janela, me debrucei por cima do seu corpo pra abrir o vidro. E não deu outra: era da própria, o tal som. E eu olhei de novo e nem um músculozinho mexia. E eu estranhamente, apesar de odiar tal estilo de música, fiquei encantada com aquela pessoa. Era um cenário de uma excêntrica poesia: o travesti lá fora com o vento levantando sua micro-saia, em pé sobre o calçadão desenhado com ondas negras e brancas em pedra portuguesa, a onda batendo com fúria, Drummond com suas pernas cruzadas sentado no banco (sem seus óculos, claro, o roubaram) e a menina séria com o Ipod digno de rave.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

vazio


Naquele dia eu só vi os rostos virados. Eu senti o gelado do armário da cozinha, por onde eu me apoiava pra não cair. Sentia também o choro que caia sem parar no chão negro. As lágrimas correrem pelo meu rosto que conhecia aí os primeiros vestígios da amargura e do trauma. Os rostos virados. As palavras mal ditas, os sentimentos confusos. E a minha cabeça rodava no meio daquele turbilhão. Era impossível entender o que acontecia. Seria possível? Tinha que ser assim, daquele jeito? Esse ódio, essa fúria? Era como se eu tivesse matado alguém, era como se eu tivesse assassinado alguém da família. Era como se eu tivesse roubado o último centavo da poupança pra usar drogas.

Eu fazia 18 anos aquele dia. Não ouvi sequer um parabéns, um abraço apertado. Não senti amor. Não senti mais amor por muito tempo. Eu não podia confiar em ninguém. Eu era perseguida, vigiada. Um ano depois eu percebi que o meu aniversário tinha perdido o sentido. Eu percebi que uma hora você tem 17 anos e é cheio de sonhos...depois você tem 18 e sua vida pode acabar. A sua juventude pode ser arrancada. E o último vestígio de inocência do qual você ainda pode usufruir parece ser mergulhado em um poço de um fel.

Me lembro que uma vez dessas, nessa época, acordei ao som de uma música e chorei. Não sei por que. Música era insuportável, tocar violão era insuportável.Tudo o que me sensibilizava trazia dor, trazia recordações, saudades junto. Eu não podia ter lembranças, não podia confiar em ninguém também, vale dizer. Eu tinha que começar do zero, sozinha. E continuar sozinha até poder realmente estar desgarrada de tudo isso, de todo esse rancor, dessa ambiente que me consome.

Na segunda-feira depois daquele feriado eu fui obrigada a ir à escola. O professor falou algo sobre como foi o final de semana das pessoas. Eu chorei. Senti a mão de um amigo no meu ombro. Senti o olhar do meu amigo pro professor, que parecia ter enfiado uma faca no meu peito. Eu me retirei e chorei nas grades da escola, vendo os carros passarem. Sozinha. Chorei sentindo o sol da manhã no rosto, tentando tirar uma sensação menos dolorosa do vento que vinha através das grades. E ninguém sabia que eu estava ali. Ninguém naquele ambiente fazia idéia do que estava acontecendo dentro de mim.

Nos dias seguintes da mesma semana tive todos os dias prova. De tarde, após as aulas. Era primavera. Quente. Eu fazia duas provas por dia, e no intervalo delas eu tinha que esperar meia hora antes da outra começar. Tinha que esperar no sol, na varanda da casa onde ficava a minha escola. Um desses dias eu fugi. Fugi pro apartamento de uma amiga. Fiquei lá um tempo e depois voltei pra casa. (casa?) Chegando lá não tinha ninguém e meu estômago revirou. Estavam atrás de mim. Uma hora cheia de angústia depois, ela entra pela porta gritando, me acusando. O prato de macarrão que eu acabara de servir ficou intacto. Permaneci sentada na mesa, calada, vendo o molho esfriar, ressecar. O molho de tomate ressecado embrulhava o meu estômago. Enquanto ela falava era só aquilo que eu olhava. Aquele molho enrugado grudado no macarrão, seco. Eu só disse que não tinha feito nada, que desviei o caminho. Ela passou a manhã me procurando pelo bairro. Eu joguei o macarrão fora. Nesse dia num ato de desespero peguei o violão enquanto a ouvia esbravejar do lado de fora do quarto. Foi a primeira vez que consegui tirar uma música de ouvido no instrumento. Toquei uma música de uma cantora desconhecida que havia descoberto pela internet antes do acontecido. Ah, internet também era proibida. Só tinha como tocar violão desse jeito, de ouvido, já que as cifras ficavam todas no computador.

Não tinha ninguém. Ninguém em quem eu pudesse confiar. Ninguém pra quem eu podia contar do que eu tinha que ouvir diariamente. Não podia falar nada falar nada, pois corria o risco de apanhar ou de piorar ainda mais a situação, de ser ainda mais isolada do mundo. Não havia sequer com quem conversar. Acho que nem conseguiria, pra falar a verdade, mesmo se o tivesse.

O ser humano passou a ser assustador. O ser humano tinha destruído tudo o que eu tinha. Mas por outro lado, fui encontrar um rastro de sentido pra vida sozinha, no fundo do armário, num objeto que era fruto desse mesmo ser humano: na literatura. E descobri que em algum lugar do mundo ainda existia alguém que podia me entender.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

da familia burguesa



Muito ouço falar que todo travesti é puta ou cabelereiro. Que é um tipo de ser humano in-digno, que vive nos submundos da sociedade moderna e que só serve pra fazer sacanagem e pra passar doença para os pobres pais de família que os procuram pelo calçadão de Copacabana. Mas sei, e desejo aqui expor, que não há motivo para este tipo de indivíduo ocupar tais cargos tão restritos socialmente do que senão a própria hipocrisia e a própria repressão da nossa sociedade em relação a tal assunto.

Travesti é um bicho que a sociedade finge que não existe. Aliás, muito pouco se distingue o que é travesti do que é drag queen. Quem não faz parte da sexualidade "verdadeira", "limpa", "digna" e reprodutora, como as famílias burguesas perfeitinhas - quem têm filhos que traficam ecstasy -, inexiste. Esse tipo de pessoa é simplesmente reprimida pelo não-dizer, pelo silêncio absoluto em relação às discussões acerca de tal assunto, pela proibição cultural em relação à reflexão sobre tal questão.

Como já dizia Michel Foucalt muito sabiamente, "Se for mesmo preciso dar lugar às sexualidades ilegítimas, que vão incomodar noutro lugar: que incomodem lá onde possam ser reinscritas, senão nos circuitos de produção pelo menos nos do lucro." Travesti, bicha, lésbica ou vão pro psiquiatra se tratar - Pai, sou gay... Vou te internar, seu viado! - ou vão vender seus corpos na rua pros engravatados pais da burguesia. É o sistema absorvendo o que o contesta, como diz nosso amigo Guy Debord.

Aí vem o pit boy que compra a playboy da mulher melancia dizer que sente vergonha pelo Ronaldinho. Ronaldinho é imoral minha gente, ele deveria estar comendo a mulher dele pra fazer filhinhos. Ao invés de comer o travesti. Sim, eu sei, é tudo muito contraditório. E o que também esse travesti estava fazendo na rua sendo prostituta? Que imoral, deveria estar cortando cabelos no salão na esquina do Leblon.

Minha gente, se tivessem salões suficientes para empregar todas as pessoas com crise de identidade sexual... E não só isso, porque todo travesti tem que querer ser somente cabelereiro ou maquiador?! São profissões legitimadas para a espécie. Como se fosse um animal domesticado. Uma vaquinha que dá leite, ou um cavalo que puxa charrete.

Essa sociedade me envergonha....

terça-feira, 13 de maio de 2008

o muro


estou em sua casa. sentada na cama. ela de costas, me contando sobre sua meninice nas ruas do subúrbio - sentada em uma cadeira de frente para o espelho velho da penteadeira de madeira, que está cheia de frascos de perfumes vazios e amaralados pelo tempo. o pó de arroz está entreaberto na sua frente, e suas mãos idosas seguram ainda com a mesma delicadeza da juventude um dos dois grampos que prenderão as laterais do seu cabelo - enquanto segura o outro com os dentes que não são mais os seus. com a outra mão estica os cabelos em coque para trás - brancos como a areia finíssima da praia mais bela e isolada num desses lugares paradisíacos - e me diz que gosta do mar, de entrar na água de roupa, sentindo o tecido grudar na pele, pesar o corpo, enquanto os raros cabelos ficam salgados, com o cheiro do oceano impregnado - odor que jura não conseguir remover durante um mês exato, mas não mais que isso; e o consegue à base de lavagens diárias com seu shampoo neutro.

sorrio com uma ternura viva, assistindo àquelas mãos enrugadas e compridas fazendo o seu trabalho suave, pacientemente, puxando mecha por mecha e arrumando impecavelmente os fios que não verão outra pessoa que não eu - confidente jovem de sua vida solitária - durante todo o decorrer do dia.

caminho para a janela e me debruço no pára-peito gelado, sentindo o vento bater no rosto e esfriar meu nariz. digo para ela que vai chover, mas não parece ouvir realmente. não faz, é bem provável, surgir um significado em sua mente para os sons que eu produzo tentando me comunicar. digo novamente "Vai chover, eu acho” e fico pensando se, na verdade, não estou fazendo uma observação estúpida.

"Posso contar-lhe algo sobre um dia como esse?", diz após todo o silêncio. Digo então que pode. - Sabe que quando vim morar aqui, vim por causa de meu marido, falecido nas mãos do governo? Vim para cá numa tarde como essa. Dessas que anunciam a chuva enquanto só trazem o frio que a prepara. E ele, alto, moreno, vestido com uma camisa listrada e calça jeans, seus óculos enormes, apontou-me esta casa, então pintada de verde, e disse: "Aqui está nossa mais nova casa. Eu mesmo a pintei durante esses últimos dias!" E percebi o quão ingênua era por achar que as manchas de tinta na única blusa que usara na semana que antecedera este acontecimento eram frutos dos muros que pichou com dizeres subversivos.

Hoje, minha filha, fazem quase quarenta anos que faleceu. E sinto que partirei: eu e meus brancos cabelos. Partirei em breve para junto dele. Por isso pintei da mesmíssima cor de então o muro da rua. E arrumei a casa do modo que era quando ele ainda passeava por estes corredores. E coloquei a sua blusa listrada e a calça que usava neste dia - as únicas peças que nunca joguei fora - esticadas em um cabide, dentro do meu armário, para sentir que pode aparecer a qualquer momento nesta porta entreaberta, ele, com flores na mão. E me ajudará a prender meus cabelos negros do jeito que gosto.

de fora da casa, ouço sua voz recontando tudo isto. o verde nas paredes e o anúncio de "VENDE-SE" angustiam o meu peito. em breve o casarão abrigará uma família nova, uma história nova; as paredes serão pintadas de branco, algumas outras serão derrubadas para que haja uma reestruturação do espaço, a penteadeira não estará mais lá - um computador ocupará o seu lugar, é bem provável.

dou boa tarde para ela e vejo o seu sorriso atrás das grades do muro baixo, que permite que eu veja a varanda florida e alegre, junto com seu rosto vivo e seu coração amargurado por esta perda irremediável. são quase quarenta anos de vida sem nexo, sem sentido. intercaladas por visitas minhas, ainda criança, e a de algumas outras poucas pessoas. vejo também contra a grade a enorme concha que povoou a minha infância de barulhos do mar, a estátua do trovador que foi colorido por seu neto ausente, e o verde. o verde sempre lá. o verde da parede. a parede verde. um verde cheio de amor. de um amor que foi e será novamente vencido pelo tempo e pelo homem.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

sincronicidades

De lado no sofá,
com os pés em cima de ti,
vejo um raio finíssimo de Sol
a entrar pela fresta da janela
e encontrar o fio dourado
(solitário)
da sua espessa cabeleira castanha;

como duas almas-gêmeas
a se avistarem pelo vidro do carro
pela primeira vez
no meio do engarrafamento
infindável.

terça-feira, 22 de abril de 2008

MP3

De dentro do onibus vejo
o bafo dos vidros e o estalo dos pingos
que anunciam a chegada
do inverno irreal

De dentro do ônibus sinto-me
protegida do vento que faz
com que as gotas simulem uma corrida
aos céus através do imenso pára-brisas

(tudo isto embalado pelo arquivo
compactado em mega-bytes e acordes
transmitios ao meu pensamento via
canal auditivo)

De dentro do ônibus levo
o meu pensamento para fora,
em um molhar-se com a água que escorre das nuvens
e que faz com que eu me confunda com ela.

sábado, 19 de abril de 2008

}{

os seios,
o meu
e o seu,
se beijam
como dois
franceses
libertinos.