Engraçado como me recordo das noites mais agoniantes com algo tão simples como não conseguir achar o apoio-de-pé do ônibus ao voltar pra casa. Sento no banco e cadê o maldito ferrinho? E a sensação de estar desprotegida vai aumentando a cada levantada de perna e a cada busca em vão com o pé esticado, passeando pelo ar debaixo do banco da frente.
Tem uma hora que desisto. Cruzo os braços em cima da mochila com um semblante infantil de mal-humor. E tento distrair-me com algo olhando pela janela. Aquelas pessoas, todas elas, dentro e fora do ônibus me enojam. Não sei se pelo balançar do ônibus no asfalto irregular - tum tum tum - ou se pelos rostos; todos cínicos, vazios e sem vida. Só sei que dá uma vontade danada de vomitar, e eu não sei como faria se eu realmente o tivesse de fazer.
Tento aliviar o enjôo deixando a janela bem aberta e sentindo aquele vento úmido e gelado do inverno bater na minha face com força, jogando o meu cabelo pra trás como se eu fosse um daqueles bonequinhos pelados e engraçados com o cabelo colorido no formato de uma grande gota na horizontal. Não sei se os farei lembrar assim.
Mas é uma merda. Enjoar no ônibus é sinal que não poderei ler uma linha do livro que carrego na mochila durante essa viagem estúpida, junto com essas pessoas que só sabem ouvir música no MP4 comprado no camelô. Às vezes fico brincando de adivinhar o que ouvem. Geralmente minhas adivinhações são carregadas de um imenso preconceito cultural do qual não me envergonho. Outras vezes nem preciso adivinhar, o som do meu vizinho de banco é tão alto que vejo lá na frente, o primeiro passageiro sacudindo a cabeça no ritmo do conteúdo do player dele.
Uma vez dessas assim, estava a meu lado uma menina de tailleur preto com um Ipod no último volume, enquando eu voltava do trabalho pela orla de Copacabana. Lá fora aquele cenário decadente de prostitutas, turistas sexuais e outros tipos de turistas que não entendo o que vêm fazer aqui com sua família. Não vejo tanto valor assim no Corcovado ou no Pão-de-Açúcar pagando o preço de flanar por entre o declínio dessa cidade partida.
Enfim, mas voltando ao assunto do Ipod: tocava em um volume imensurável um tum tzi tum tzi frenético. E o semblante da ouvinte era incrivelmente sereno. Um paradoxo lindo. Como ela conseguia? Será que era dela mesmo aquele barulho todo ou do meu vizinho de trás?
Arranjei um jeito de descobrir, já que ela estava do lado da janela, me debrucei por cima do seu corpo pra abrir o vidro. E não deu outra: era da própria, o tal som. E eu olhei de novo e nem um músculozinho mexia. E eu estranhamente, apesar de odiar tal estilo de música, fiquei encantada com aquela pessoa. Era um cenário de uma excêntrica poesia: o travesti lá fora com o vento levantando sua micro-saia, em pé sobre o calçadão desenhado com ondas negras e brancas em pedra portuguesa, a onda batendo com fúria, Drummond com suas pernas cruzadas sentado no banco (sem seus óculos, claro, o roubaram) e a menina séria com o Ipod digno de rave.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
vou de ônibus
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