estou em sua casa. sentada na cama. ela de costas, me contando sobre sua meninice nas ruas do subúrbio - sentada em uma cadeira de frente para o espelho velho da penteadeira de madeira, que está cheia de frascos de perfumes vazios e amaralados pelo tempo. o pó de arroz está entreaberto na sua frente, e suas mãos idosas seguram ainda com a mesma delicadeza da juventude um dos dois grampos que prenderão as laterais do seu cabelo - enquanto segura o outro com os dentes que não são mais os seus. com a outra mão estica os cabelos em coque para trás - brancos como a areia finíssima da praia mais bela e isolada num desses lugares paradisíacos - e me diz que gosta do mar, de entrar na água de roupa, sentindo o tecido grudar na pele, pesar o corpo, enquanto os raros cabelos ficam salgados, com o cheiro do oceano impregnado - odor que jura não conseguir remover durante um mês exato, mas não mais que isso; e o consegue à base de lavagens diárias com seu shampoo neutro.
sorrio com uma ternura viva, assistindo àquelas mãos enrugadas e compridas fazendo o seu trabalho suave, pacientemente, puxando mecha por mecha e arrumando impecavelmente os fios que não verão outra pessoa que não eu - confidente jovem de sua vida solitária - durante todo o decorrer do dia.
caminho para a janela e me debruço no pára-peito gelado, sentindo o vento bater no rosto e esfriar meu nariz. digo para ela que vai chover, mas não parece ouvir realmente. não faz, é bem provável, surgir um significado em sua mente para os sons que eu produzo tentando me comunicar. digo novamente "Vai chover, eu acho” e fico pensando se, na verdade, não estou fazendo uma observação estúpida.
"Posso contar-lhe algo sobre um dia como esse?", diz após todo o silêncio. Digo então que pode. - Sabe que quando vim morar aqui, vim por causa de meu marido, falecido nas mãos do governo? Vim para cá numa tarde como essa. Dessas que anunciam a chuva enquanto só trazem o frio que a prepara. E ele, alto, moreno, vestido com uma camisa listrada e calça jeans, seus óculos enormes, apontou-me esta casa, então pintada de verde, e disse: "Aqui está nossa mais nova casa. Eu mesmo a pintei durante esses últimos dias!" E percebi o quão ingênua era por achar que as manchas de tinta na única blusa que usara na semana que antecedera este acontecimento eram frutos dos muros que pichou com dizeres subversivos.
Hoje, minha filha, fazem quase quarenta anos que faleceu. E sinto que partirei: eu e meus brancos cabelos. Partirei em breve para junto dele. Por isso pintei da mesmíssima cor de então o muro da rua. E arrumei a casa do modo que era quando ele ainda passeava por estes corredores. E coloquei a sua blusa listrada e a calça que usava neste dia - as únicas peças que nunca joguei fora - esticadas em um cabide, dentro do meu armário, para sentir que pode aparecer a qualquer momento nesta porta entreaberta, ele, com flores na mão. E me ajudará a prender meus cabelos negros do jeito que gosto.
de fora da casa, ouço sua voz recontando tudo isto. o verde nas paredes e o anúncio de "VENDE-SE" angustiam o meu peito. em breve o casarão abrigará uma família nova, uma história nova; as paredes serão pintadas de branco, algumas outras serão derrubadas para que haja uma reestruturação do espaço, a penteadeira não estará mais lá - um computador ocupará o seu lugar, é bem provável.
dou boa tarde para ela e vejo o seu sorriso atrás das grades do muro baixo, que permite que eu veja a varanda florida e alegre, junto com seu rosto vivo e seu coração amargurado por esta perda irremediável. são quase quarenta anos de vida sem nexo, sem sentido. intercaladas por visitas minhas, ainda criança, e a de algumas outras poucas pessoas. vejo também contra a grade a enorme concha que povoou a minha infância de barulhos do mar, a estátua do trovador que foi colorido por seu neto ausente, e o verde. o verde sempre lá. o verde da parede. a parede verde. um verde cheio de amor. de um amor que foi e será novamente vencido pelo tempo e pelo homem.
terça-feira, 13 de maio de 2008
o muro
quarta-feira, 7 de maio de 2008
sincronicidades
De lado no sofá,
com os pés em cima de ti,
vejo um raio finíssimo de Sol
a entrar pela fresta da janela
e encontrar o fio dourado
(solitário)
da sua espessa cabeleira castanha;
como duas almas-gêmeas
a se avistarem pelo vidro do carro
pela primeira vez
no meio do engarrafamento
infindável.
com os pés em cima de ti,
vejo um raio finíssimo de Sol
a entrar pela fresta da janela
e encontrar o fio dourado
(solitário)
da sua espessa cabeleira castanha;
como duas almas-gêmeas
a se avistarem pelo vidro do carro
pela primeira vez
no meio do engarrafamento
infindável.
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