Naquele dia eu só vi os rostos virados. Eu senti o gelado do armário da cozinha, por onde eu me apoiava pra não cair. Sentia também o choro que caia sem parar no chão negro. As lágrimas correrem pelo meu rosto que conhecia aí os primeiros vestígios da amargura e do trauma. Os rostos virados. As palavras mal ditas, os sentimentos confusos. E a minha cabeça rodava no meio daquele turbilhão. Era impossível entender o que acontecia. Seria possível? Tinha que ser assim, daquele jeito? Esse ódio, essa fúria? Era como se eu tivesse matado alguém, era como se eu tivesse assassinado alguém da família. Era como se eu tivesse roubado o último centavo da poupança pra usar drogas.
Eu fazia 18 anos aquele dia. Não ouvi sequer um parabéns, um abraço apertado. Não senti amor. Não senti mais amor por muito tempo. Eu não podia confiar em ninguém. Eu era perseguida, vigiada. Um ano depois eu percebi que o meu aniversário tinha perdido o sentido. Eu percebi que uma hora você tem 17 anos e é cheio de sonhos...depois você tem 18 e sua vida pode acabar. A sua juventude pode ser arrancada. E o último vestígio de inocência do qual você ainda pode usufruir parece ser mergulhado em um poço de um fel.
Me lembro que uma vez dessas, nessa época, acordei ao som de uma música e chorei. Não sei por que. Música era insuportável, tocar violão era insuportável.Tudo o que me sensibilizava trazia dor, trazia recordações, saudades junto. Eu não podia ter lembranças, não podia confiar em ninguém também, vale dizer. Eu tinha que começar do zero, sozinha. E continuar sozinha até poder realmente estar desgarrada de tudo isso, de todo esse rancor, dessa ambiente que me consome.
Na segunda-feira depois daquele feriado eu fui obrigada a ir à escola. O professor falou algo sobre como foi o final de semana das pessoas. Eu chorei. Senti a mão de um amigo no meu ombro. Senti o olhar do meu amigo pro professor, que parecia ter enfiado uma faca no meu peito. Eu me retirei e chorei nas grades da escola, vendo os carros passarem. Sozinha. Chorei sentindo o sol da manhã no rosto, tentando tirar uma sensação menos dolorosa do vento que vinha através das grades. E ninguém sabia que eu estava ali. Ninguém naquele ambiente fazia idéia do que estava acontecendo dentro de mim.
Nos dias seguintes da mesma semana tive todos os dias prova. De tarde, após as aulas. Era primavera. Quente. Eu fazia duas provas por dia, e no intervalo delas eu tinha que esperar meia hora antes da outra começar. Tinha que esperar no sol, na varanda da casa onde ficava a minha escola. Um desses dias eu fugi. Fugi pro apartamento de uma amiga. Fiquei lá um tempo e depois voltei pra casa. (casa?) Chegando lá não tinha ninguém e meu estômago revirou. Estavam atrás de mim. Uma hora cheia de angústia depois, ela entra pela porta gritando, me acusando. O prato de macarrão que eu acabara de servir ficou intacto. Permaneci sentada na mesa, calada, vendo o molho esfriar, ressecar. O molho de tomate ressecado embrulhava o meu estômago. Enquanto ela falava era só aquilo que eu olhava. Aquele molho enrugado grudado no macarrão, seco. Eu só disse que não tinha feito nada, que desviei o caminho. Ela passou a manhã me procurando pelo bairro. Eu joguei o macarrão fora. Nesse dia num ato de desespero peguei o violão enquanto a ouvia esbravejar do lado de fora do quarto. Foi a primeira vez que consegui tirar uma música de ouvido no instrumento. Toquei uma música de uma cantora desconhecida que havia descoberto pela internet antes do acontecido. Ah, internet também era proibida. Só tinha como tocar violão desse jeito, de ouvido, já que as cifras ficavam todas no computador.
Não tinha ninguém. Ninguém em quem eu pudesse confiar. Ninguém pra quem eu podia contar do que eu tinha que ouvir diariamente. Não podia falar nada falar nada, pois corria o risco de apanhar ou de piorar ainda mais a situação, de ser ainda mais isolada do mundo. Não havia sequer com quem conversar. Acho que nem conseguiria, pra falar a verdade, mesmo se o tivesse.
O ser humano passou a ser assustador. O ser humano tinha destruído tudo o que eu tinha. Mas por outro lado, fui encontrar um rastro de sentido pra vida sozinha, no fundo do armário, num objeto que era fruto desse mesmo ser humano: na literatura. E descobri que em algum lugar do mundo ainda existia alguém que podia me entender.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
vazio
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